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Publicado por en 26/01/2015 el Artículos de alumnos | 0 comentarios

Pessoas que querem mudar o mundo, mas não sabem por onde começar: Sobre os estágios do empreendedorismo social

 

Por Murillo Rodrigues dos Santos

 

Quem trabalha com jovens de grande potencial ao redor do mundo, como a Fundação Botín, por exemplo, ou diversas outras organizações ao redor do globo, sendo nacionais ou internacionais, sabe que um dos elementos mais presentes em tal classe é a capacidade de pensar grande. Encontram-se muitos jovens que possuem vontade de mudar o mundo, de causar impacto, de deixar uma “marca positiva” em sua geração, promovendo mudanças sociais relevantes, mas encontra-se também, via de regras, um elemento que impede que tal desejo se concretize: Não saber por onde começar.

Essa capacidade sonhadora não é rara em jovens, pode ser encontrada desde os mais ricos até aos mais pobres. Todavia, acredito que não é o capital financeiro que estes possuem que determina o seu sucesso em alcançar o seu desejo, mas sim algumas características comportamentais, das quais eu gostaria de discorrer sobre elas.

Há os que sonham, há os que planejam, e há os que executam – poderíamos dividir assim os três níveis de empreendedorismo social em que se encontram os jovens sonhadores. O primeiro nível deles, o dos Sonhadores, é o dos que vivem no mundo da abstração e que possuem dificuldades em sintetizar suas ideias, talvez isso se deva ao volume de pensamentos que não foram domados por um treinamento psicológico adequado. Esses jovens necessitam de educação comportamental, educação empreendedora, educação social, para assim serem dotados de ferramentas para aprenderem como sintetizar as ideias e chegarem no segundo nível: O dos Planejadores.

O segundo nível de empreendedorismo social, o dos já nominados Planejadores, é aquele que compreende os jovens que já possuem determinado treinamento, habilidades e ferramentas para organizar as ideias ao redor de um plano formal. É o grupo dos jovens que deram forma aos seus pensamentos, construindo através de ideias concretas (cada uma com nome, cor, logomarca, público alvo, risco potenciais, cálculo de investimento, etc., definidos) seu portfólio de atuação. Todavia, como diz a máxima, planejar não quer dizer “executar”, e é aqui que encontra-se grande parte do problema! Acredito que a maioria dos jovens encontra-se nesta etapa do empreendedorismo social: Uma etapa de vontades sintetizadas em papéis, mas não concretizadas na realidade.

Entre o segundo nível e o terceiro, o dos Executores, há um grande abismo que deve ser superado através de um salto. Esta palavra representa a decisão de dar o primeiro passo em direção de tornar o planejamento em prática, e isso depende de uma força motora grande e desafiadora. Para dar este salto é preciso coragem, isso é óbvio, mas o que eu gostaria de explanar é o porque temos tanto medo de dar esse salto e como fazê-lo.

Em primeiro lugar, temos medo de transformar nosso planejamento em prática por medo de sair da nossa zona de conforto, e encarar as incertezas do mercado, da sociedade, do governo, do século XXI, do que seja. E esse medo se dá diante do fato de que teremos o nosso sonho, convertido em plano, desafiado por diversas variáveis que não temos controle, e que pode, invariavelmente, nos mostrar que alguma parte de nossa ideia não irá dar certo, o que nos obrigará a mudar o caminho. Isso desafia frontalmente a nossa tendência psicológica desenvolvida por milênios, segundo o princípio da evolução da espécie, da busca pela estabilidade, economia e equilíbrio. Mas como romper com isso?

Para dar o seu salto, posso sugerir que se escolha um passo seguro. Isso quer dizer que é preciso eleger uma ação da qual não precisaremos nos desafiar de modo e comprometer a totalidade do projeto. Exemplifico: Quando vamos aprender a nadar, não nos jogamos inconsequentemente no mar sem nenhuma boia, pelo contrário, vamos para alguma piscina, com toda a proteção possível e sob o auxílio de quem já o sabe. O mesmo princípio é válido para dar o primeiro passo, sendo preciso que este seja o mais “fácil” e controlado possível, porém que seja um passo. Na medida em que os pés estiverem se firmando sobre o terreno da instabilidade, aí sim poderemos avançar com mais vigor, porém sempre respeitando o princípio de colocar um pé de cada vez, e de subir degrau por degrau, sem correr, para evitar tombos.

Também é importante que se tenha uma pessoa referência, um tutor. Mesmo que não seja um coach empresarial, ou um grande professor, é sempre importante ter alguém para quem consultar, perguntar e expor as ideias. Nunca devemos nos esquecer que “o outro” sempre será o mediador de nossa relação com o mundo, e este outro pode ser fonte de informação da qual não dispomos. Ter esta pessoa referência é importante.

Em terceiro lugar, para dar este salto, é necessário comprometer-se publicamente. Isso coloca em cheque a sua credibilidade e a sua moral diante de um público que irá cobrar respostas de seu projeto, de sua palavra. Quando uso a palavra publicamente, a faço com a ideia de que, a sociedade (dividida entre seus diversos grupos: Família, Escola, Universidade, Igreja, etc.) fornece uma fonte de pressão capaz de levá-lo para cima ou para baixo, sendo que um bom empreendedor saberá usar desta força para subir e não para descer.

Seguindo os princípios para se dar o salto, é preciso ter um plano de contingências. Este plano é o conjunto de passos que devem ser tomados caso algo dê errado. Este é o ponto de encontro perfeito entre o planejamento e a prática, pois serve para mitigar desastres caso eles ocorram, mas está aberto sempre para as incertezas do processo.

Ter em mente um bom plano de contingências ajuda no desafio de abandonar a ansiedade. Quem pensa que ansiedade é um fenômeno só para psicólogos se preocuparem está enganado: Muitos empreendedores erraram muito no começo, ou mesmo não conseguiram avançar porque tomaram decisões maiores do que poderiam sustentar, ou mesmo nem saíram do ponto inicial por medo de arriscarem, pensando em futuro idealizado, e por isso não saíram do lugar. Para empreender é preciso lidar com riscos!

E por isso, há que se escolher o local por onde começar! Muitas pessoas querem mudar o mundo ou os seus países, mas idealizam que somente a política partidária é o lugar para isso, e que para mudar a sociedade precisam ser presidentes, governadores ou deputados. Isso é um engano! Para mudar a comunidade, o país ou o mundo, é preciso ter consciência de que, qualquer ação bem executada e que tenha o fim de melhorar o entorno dos seus executores será eficaz! A questão é ter sempre um plano de ação social onde você estiver: Se for um jovem empresário, faça a sua empresa ter um setor responsável por ações sociais, ainda que sejam assistencialistas. Se for um professor, forme um grupo de estudos para crianças pobres de sua cidade. Se for um médico, forme um grupo de cuidados médicos aos necessitados que não podem pagar, e sirva-os gratuitamente. Não quer dizer que tenhamos que dedicar toda a nossa vida, mas podemos dar um pouco de nossas horas semanais em prol de atos sociais. Comece onde você está: Se está em uma universidade, em uma igreja, em uma empresa, no governo, sempre haverá iniciativas que podem ser tomadas para melhorar o seu entorno. Busque pessoas que possuem o mesmo desejo de mudança social, e projetem, afinal de contas, o mundo é muito grande para ser “mudado sozinho”. E por isto quero dizer: Quanto mais conscientes formos de nossas emoções neste processo, e da necessidade de abandonarmos o nosso egoísmo de achar que seremos sozinhos os salvadores da humanidade, menos megalomaníacos e mais eficientes seremos.

Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil) e pela Universidad Católica del Norte (Chile). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Bolsista da 4ª Edição do Programa para o Fortalecimento da Função Pública na América Latina (2013) da Fundação Botín (Espanha). Atualmente é pesquisador pelo Ministério da Educação do Brasil e presidente da Rede Goiana de Psicologia, uma start up em psicologia.

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